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domingo, 12 de fevereiro de 2012

Sem ilusões

Ser pedestre em BH é não ter nenhuma ilusão. As condições são quase todas desfavoráveis. Somos muitos, mas é disseminado um sentimento de desconsideração à nossa existência – falar em invisibilidade seria tolice. Nossa falta de poder é completa. Se não há sinal de trânsito, dificilmente um carro pára na faixa quando um pedestre espera. Se há, carros e motos costumam avançar quando ele acaba de ficar vermelho, e fazer barulho com os motores quando ele ainda não retornou ao verde, guiando-se pelo sinal de alerta para os mesmos pedestres, e tensionando nosso tempo de circulação. Ser pedestre aqui, resumindo, é sempre arriscado. Os carros e motos (muitos, muitos) trafegam velozmente e são extremamente competitivos entre si. Nesse ritmo, o pedestre é visto como um estranho resíduo de uma cidade anterior – nada é feito para valorizar ou ao menos garantir a sua circulação segura. Tenho andado muito, e me choca o número de atropelamentos. Minha observação é empírica, se houvesse (haverá?) estatísticas, teríamos uma pequena ideia da violência que se tornou o trânsito em Belo Horizonte. Mas dá para senti-la na pele todos os dias. Em resposta à desconsideração e ao despoder, os pedestres impõem sua existência através de táticas inseguras, para não dizer suicidas: atravessar correndo no meio da rua, fora da faixa; andar no meio dos carros semi-parados (arriscando-se com as motos), entre outras imprudências, que eu também me acostumei a praticar. Tenho o sentimento de iminência de desastre (embora os desastres já estejam aí, pra todo lado; quem circula sabe).

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